Assim, de impulso, sou contra. Com mais dedicação ao tema, debruçado em ponderações, também. Não se trata de questão de humor. Lamenta-se, aqui, a questão dos critérios.

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São suspeitos, no mínimo. A senhora baixotinha, de chapéu branco e óculos abelhudos, intercala intervenções na caminhada matinal. Aborda o bebê e ignora a babá, num desalentador clichê de vogais. O senhor robusto revela-se leitor das fábulas de La Fontaine e só fala com os cachorros. Pessoas? Dispenso, passar muito bem. E a moçoila de franja, estalando grafismos étnicos na malha de ginástica, engana: distribui bom-dia a quem quer que passe, inspira a crença na volta da democracia, mas — não perca (a perspectiva) de vista — ignora lixeiros, porteiros, pedreiros… Prova de que até o bom-dia requer convicção.

Embora menos fictícios do que deveriam, os personagens não têm culpa. Essa seletividade cretina nasce no cotidiano antes do primeiro bom-dia.

Nossa Seleção, obsessão óbvia, Copa América e tal, coleciona um par de exemplos semelhantes. Se Neymar acaba expulso, pobre diabo; foi vítima contumaz da carnificina rival, da falta de Messis no Brasil (nessa, estou junto, também me expulsem, por favor) e das autoridades espanholas que insistem em escabichar 35 milhões de euros não declarados. Felipe Melo… Recorda? Última notícia a respeito, havia sido exilado na Turquia… Moldávia… Macedônia… Alguém com conhecimentos práticos de geografia se manifeste, por gentileza.

Nesse conto, Neymar, claro, é o bebezão fofo (e chorão); Felipe Melo, o lixeiro (que nem bebês nem lixeiros se ofendam). E, seguindo a mesma lógica fajuta, recebem tratamentos desiguais. São expulsões diferentes, alguém sussurra. Certo. E Neymar tem mais serviços prestados ao país: afinal, sagrou-se campeão da Copa das Confederações (Felipe Melo também, avisa o mesmo gaiato).

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David Luiz não foi expulso nesta Copa América. Ainda. Anda lambão, o zagueiro/volante/reserva. Mas pode desistir de atormentá-lo. Ele é o brother da meninada, o genro que a senhorinha lá em cima adoraria ter, e o pôster no quarto da babá que não ganhou bom-dia. Da dupla de zaga do 7 x 1, foi quem mereceu absolvição. Dante, colega de defesa no(s) gol(s) da Alemanha, que arda no inferno. Reeditemos o trocadilho, mas jamais a parceria. Nem Dunga reeditaria.

David Luiz é a versão 2014/2015 de Kaká, o meia “alfabetizado, bonito e que tem todos os dentes na boca”, na encantada avaliação de Carlos Miguel Aidar. Estivesse Kaká ajeitando o meião em 2006, o subterfúgio da eliminação diante da França teria voo curto.

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A todos esses bons-dias, lamento, sou contra. Ou se espinafra generosamente ou nada feito, o que também é uma questão de critérios. Se for para ser seletivo assim, com tamanha cara de pau, melhor gastar o meu (o seu, o bom-dia de qualquer um), em objetivos mais nobres:

“Bom-dia à moça, que estava de noite como de dia, bem longe de meu poder e de meu pobre bom-dia.”

Até porque não será da noite para esse bom-dia que passaremos a julgar sem cinismo. Mas aqueles que amanhecem em conluio com Drummond têm uma probabilidade muito mais alta de eventualmente acertar.

Esta coluna é originalmente publicada às terças no Correio Braziliense

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Two decades of hardcore journalism in a past life; now Digital Media PhD candidate @ University of Porto, coffee taster and vinyl aficionado

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