Como se não houvesse amanhã

Há quem acredite em reencarnação. E há quem tenha o mínimo de senso. Desprovida de sentido lógico — e empalhada sob duvidosos argumentos espirituais — , a reencarnação é a Mega da Virada do espiritismo (generalizo, estou consciente…). Se os cristãos acenam alegremente com a vida eterna (um contrasenso, vai), a black friday dos espíritas entrega brinde mais vistoso: o eterno retorno. Não é de se admirar. Uma existência perpétua carregava lá seu apelo no século 13, época em que até um jantar parecia interminável; hoje, entre um cruzeiro no Mar Morto (ato falho) e um tour de 18 países da Europa em 31 dias, também elegeria o segundo.

Como nem todo mundo deu a sorte de ver Florença fritar no século 13, é bom que se desfaça a ilusão: só se vive uma vez. E passa “como um sopro”, na definição concisa e terminante de Oscar Niemeyer (“um sopro”, para alguém que só topou morrer no desembarque dos 104 anos).

Depois dos 100, Niemeyer deu para alertar a meninada. Parece generosidade, mas é padrão. Quanto mais longevos ficam(os), mais querem(os) alertar a meninada. Velhinhos em guarda, tentando convencer boys and girls in America que eles desperdiçam fartas porções da vida com empregos boçais, relacionamentos perniciosos, orgulhos desproporcionais (compañero, acredite, você não tem essa importância)… Elogiável? Sim, sim. Mas, como a reencarnação, essa batalha é perdida.

Em vez de essência, deveriam(os) tentar ensinar fundamentos básicos: passe, chute, cabeçada. Cada um empresta o que tem e quem quiser que leve adiante: “compre dólar”, “leia mais”, “seja tão duro com você mesmo como é com os outros” (valeu, Du Gard)… tema livre, como nas doutrinas religiosas. “Viaje para perto”, eis minha proveitosa contribuição.

Não há metáfora, perífrase ou qualquer outra figura; trata-se de uma recomendação prática. Viaje para perto: Huacachina e Puno, no Peru; Copacabana, do outro lado do Titicaca, na Bolívia; Loja, no Equador, e, claro, o noroeste da Argentina.

O noroeste da Argentina é um espanto. Você não dá nada por San Miguel de Tucumán — ela também não dá nada por você — , mas se abraça com o mais extenuante bife de chorizo que devorará na vida (nessa e em umas quatro adiante, se churrasco e reencarnação são o seu barato). Confunde Cafayate com Cavalcante até o momento em que se embriaga com os vinhos da região — “Melhores que os de Mendoza”, insistem, embora ninguém se importe. “Arram, sirva outra taça, gracias”. E adormece sob o céu faiscado de Tilcara imaginando como passou tantas Londres, Marselhas e Novaiorques antes de pousar ali.

O noroeste da Argentina é um espanto, entre tantos temas, porque ninguém vai lá. Nem os argentinos. A Ruta 9 estilhaça mais curvas que a Régis Bittencourt, e ainda assim não há engarrafamento. Os turistas até estão por ali. De Londres, Marselha, Nova York. Mas não enchem um caminhão, que dirá um engarrafamento.

Além de escapar de dólar e euro, essa incursão customizada na América do Sul permite trato estreito com a vizinhança. E faz perceber que eles nos conhecem (e se conhecem) com admirável precisão. Vice-versa? Não caia na esparrela. Mal sabemos identificar dois titulares da Chapecoense, que dirá opinar sobre o Sportivo Luqueño (sorry, Furacão).

Desenha-se um porém. O noroeste da Argentina não se encanta com os times de lá. Até porque é uma dureza encontrar um time de lá. O futebol argentino vai até Córdoba, com esforço. Na região, 86% da população torce para equipes de Buenos Aires; 73%, para Boca ou River. Podia ser um chute, é uma pesquisa porém. Nem por isso, eles ignoram a Chapecoense deles (o Atlético Tucumán), e — aí, sim, o espanto — muito menos a nossa. Os sul-americanos amam o futebol como esporte-religião com paixão semelhante à direcionada ao clube para o qual torcem. Semelhante.

“Viaje para perto” é um conselho tão proficiente que deveria nortear esse turismo ordinário de técnicos brasileiros que passam dois dias no Real, dois no Milan e recebem um certificado nacional de reciclagem. Eles chamam de intercâmbio o que, na verdade, é um supletivo.

Alvo de Flamengo, Atlético-MG e Inter para a próxima temporada, Muricy Ramalho, sem trabalhar há sete meses, passou uma semana em Barcelona. Não necessariamente no Barcelona. Chegou ontem, anteontem, dia desses. Pelas entrevistas que concedeu após o retorno, parece ter aprendido duas lições, não mais:

  1. “Aqui acontece um problema como o do zagueiro que errou o passe, e o Eibar fez 1 x 0 contra o Barça, e você não ouve a torcida vaiar.”

Não sei do ponto de vista de quem o entrevistou, mas daqui se conclui que
A) o problema do futebol brasileiro se concentra na mentalidade da torcida e B) a diferença entre os treinadores europeus e os nacionais limita-se à estrutura dos times.

Curiosa a percepção de Muricy. Mais curiosa ainda por que ela reflete um inexplicável consenso entre os profissionais brasileiros. Na próxima encarnação, tudo melhora, todos melhoram… (espíritas, esses otimistas…). Como só se vive uma vez, seguem os conselhos: “Viaje para perto”, “compre dólar”, “leia mais” e, se nada mais funcionar, ao menos “seja tão duro com você mesmo como é com os outros”. Du Gard vale para esta e para qualquer outra vida.

Esta coluna é originalmente publicada às quintas no Correio Braziliense

Two decades of hardcore journalism in a past life; now Digital Media PhD candidate @ University of Porto, coffee taster and vinyl aficionado

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