Esqueçam o jogo de ontem entre Atlético-MG e São Paulo. Apesar do 3 x 1, não está naqueles 90 minutos de Mineirão o fado do Galo neste engarrafado 2015. Esqueçam o time, por ora, e vamos ao que interessa. Organizem tocaia de modo a não perder de vista o treinador do clube mineiro: como Levir Culpi se converteu no maior gênio do futebol nacional?

Se é sabido que perguntar não ofende (as tolices do mundo…), arrisco a sorte aqui, com realce apropriado: como Levir, apelidado de LeVice pelos sete vices entre 1998 e 2004; como Levir, dono de três Segundonas e uma Copa do Brasil no rol de conquistas mais expressivas até pouco tempo atrás; como Levir, com menos experiência no Brasileirão de pontos corridos do que Márcio Bittencourt e Waldemar Lemos; como ele acordou elevado a gênio?

Investiguemos. O Levir recente deambulou seis meses pela fartura. Fartura é termo generoso. Conquistou a Copa do Brasil mineira, contra o Cruzeiro, em novembro do ano passado, e o Mineiro original em maio agora, diante da Caldense (praticamente um Ney Franco, que também papou mineiro e Copa do Brasil em sequência, há uma década). Antes, havia embarcado em temporada japonesa, entre 2007 e 2013. Lá, ganhou status. Status é termo ainda mais generoso.

Um esforço de reportagem — o site oficial do próprio — dá conta das proezas de Levir Culpi no comando do Cerezo Osaka. Não perca a conta, são quatro: 1) Classificou o time à Liga dos Campeões da Ásia 2013, 2) Levou o time às quartas de final da Liga da Ásia 2011, 3) Terceiro colocado na J-League 2010, 4) Subiu o Cerezo para a primeira divisão em 2009.

Não, não ganhou nenhum título. Status, foi o que ele ganhou.

Subir time de divisão, porém, é uma habilidade que frequenta o currículo com mais familiaridade. Além do Cerezo Osaka, em 2009, ele conseguiu o acesso com o Botafogo, em 2003 (na segunda posição da Segundona), e com o Atlético-MG, em 2006 (na primeira posição da Segundona).

Se Levir Culpi se tornou(ará) realmente o maior gênio do futebol nacional, aos 62 anos e 19 times nas costas, sua história, quem sabe, encontre afinidades na do escritor Lúcio Cardoso. Mineiro de Curvelo — não, ele não torcia por time algum — , Cardoso era tão talentoso quanto irritadiço, envolto numa trajetória que recortou romances, poemas, crônicas e peças que beiravam o brilhantismo, mas que nunca exatamente acertavam a linha pontilhada. Se até determinado momento, nada daquilo rendeu reconhecimento condigno, ao menos embicou noites de ribalta ao lado de Clarice — Lispector, você adivinhou — , enquanto ela se apaixonava e ele se aborrecia com o mundo. Acalma-te, amigo, a vida não é feita apenas de vices e títulos de segunda divisão.

Até que em 1959, Lúcio Cardoso ganhou a Champions, a Copa do Mundo e o Mundial de Clubes. Tudo no mesmo ano, com Crônica da casa assassinada. Pecado: Crônica é uma conquista muito maior do que todos esses títulos. E, com ela, veio, enfim, o reconhecimento:

“Um autor que deu dignidade à literatura transformando-a em arte maior e um ser humano que via a vida como um exercício de beleza e justiça”, como recita a orelha de Fausto Wolff, na edição comemorativa de 40 anos da publicação.

Crônica da casa assassinada é a contemplação máxima de um quarto de século de jornada despudorada, que começara em 1934 e só veio a descansar quando acabou por se encontrar na própria obra.

Assim, talvez, seja o caminho de Levir, que completa três décadas como técnico de futebol no ano que vem. Pela estridência em torno de uma meritocracia difícil de enxergar, há de estar próxima a Crônica libertadora do treinador. E, aí sim, o consequente reconhecimento de um profissional “que dará dignidade ao futebol transformando-o em arte maior”.

Pode parecer provocação, mas que ninguém se engane: é torcida.

Esta coluna é originalmente publicada às quintas no Correio Braziliense

Two decades of hardcore journalism in a past life; now Digital Media PhD candidate @ University of Porto, coffee taster and vinyl aficionado

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