Barça e Atlético de Madri, domingo agora. Com o resultado e o título espanhol no bolso, Neymar sassarica em cima da bola para ganhar tempo. Recebe esculacho de dois adversários, finge surpresa, leva cartão amarelo e, mais tarde, publica qualquer bobagem em uma rede social. Neymar é mesmo a cara do futebol brasileiro, certo?

Antes fosse. A cara do futebol brasileiro é o presidente do Santos, Modesto Roma Jr. Nesse fim de semana, o dirigente santista, acompanhado de um assecla, desembarcou no país após uma semana de viagem à Itália. Em tese, Modesto partiu para negociar a liberação de Robinho. “Liberação”, aqui, é um termo amplo como um filme de Lav Diaz. O mandatário do Peixe precisava que o atacante seguisse no Milan até o fim do contrato e, assim, o clube italiano estendesse o empréstimo. Nada disso saiu da ficção, que, de trágica, passa a cômica: no dia em que chegou a Milão, Modesto descobriu que Robinho, sem nunca ter tirado os pés do Brasil, negociou sua rescisão com a equipe italiana. Pronto, o jogador estava “liberado”. Não para ser emprestado novamente ao Santos, mas sim para negociar com o Santos, cujo o presidente estava na Itália fazendo sabe-se lá o quê.

Por aqui, pouca gente associou o nome ao desazo, mas, ainda assim, o Peixe tentou colocar a pasta de volta no tubo: o presidente santista estaria na Itália não por Robinho, mas a fim de negociar o retorno do zagueiro Alex, também do Milan. Não grudou. Alex tem contrato até junho de 2016 e um acordo só pode/deve ser tratado no início do ano que vem. Mais quatro dias na Itália e brotou nova versão. Modesto Roma Jr. teria reunião marcada com a Kappa, fabricante de material esportivo, para substituir a atual fornecedora do Santos. Para azar do novo script, a Kappa tem sede em Turim e não em Milão, mas a distância entre as duas cidades é curta, coisa de 150km.

Nem rápida nem barata, porém, foi a aventura da dupla santista à Itália. O preço médio de uma passagem de ida e volta, de São Paulo a Milão, na classe econômica, fica em US$ 1.400. Já um hotel mediano nas imediações da sede do Milan, daqueles que famílias de bem viram a noite pesquisando no Trip Advisor, tem diária de R$ 800. Na conta menos prejudicial aos cofres da Vila (R$ 8.800 em passagens e R$ 11.200 em hospedagens), Modesto Roma Jr. sapecou R$ 20 mil numa jornada que teria evitado se tivesse chamado Robinho para uma calabresa ali na Luana Pizzaria, colada no Urbano Caldeira. Claro que a pizza do Luana não é a mesma da Maruzzella, em Milão, mas também não justifica R$ 20 mil no biglietto ristorante.

Robinho não pareceu preocupado, como deixou claro a advogada do jogador, Marisa Alija:

“O Santos não faz parte desta rescisão com o Milan. Acredito que ele (Modesto Roma Jr.) tenha outro interesse lá”.

Não há mesmo razão para o jogador se estressar: ele vai a Chapecó no domingo, depois pega o Sport, e, com apenas quatro jogos pelo Santos no Brasileirão, se apresenta à Seleção de Dunga para a Copa América.

A Seleção é outra que tem a cara do Brasil. Em bela reportagem do correspondente do Estadão na Suíça, Jamil Chade, documentos obtidos pelo jornalista mostram que o contrato de cerca de US$ 1 milhão por jogo da Seleção Brasileira estipula que, “se acaso os jogadores de qualquer partida não são os do Time A, a taxa de comparecimento prevista nesse acordo será reduzida em 50%”. Diz ainda que, em caso de contusão ou eventual ausência, “a CBF fará o possível para substituir com novos jogadores de nível similar, com relação a valor de marketing, habilidades técnicas, reputação”. Quem dera…

Provavelmente a empresa que se acertou com a CBF não entenda bem que “o valor de marketing” da Seleção Brasileira estacionou em outro patamar há algum tempo. E que substituir por “jogadores de nível similar” um time com Elias, Douglas Costa e Firmino não chega a ser tarefa exatamente complexa. Mesmo com a inestimável presença de Robinho, o atacante que vale a viagem. Não importa qual.

Esta coluna é originalmente publicada às terças no Correio Braziliense

Two decades of hardcore journalism in a past life; now Digital Media PhD candidate @ University of Porto, coffee taster and vinyl aficionado