Há poucos roteiros tão absurdos quanto prodigiosos no cinema como o que embala O Anjo exterminador, de Luis Buñuel. Há poucos hoje. Em 1962, ano da produção, havia dois ou três. Três, para quem gosta de Bergman. A sinopse do IMDB é curta e satisfatória: “Convidados de um jantar de alta classe se descobrem incapazes de ir embora do local”.

Não há qualquer barreira física que os encarcere na mansão. A burguesia retratada por Buñuel se percebe trancafiada pelo nada e, com o passar dos dias, sem ter para onde ir, dispensa a identidade plastificada. Toda máscara usada por tempo demais sufoca.

Da premissa espetaculosa, estalam interpretações como traque regado a quentão. Todas e nenhuma válidas. Na biografia, Buñuel corta o debate: O anjo exterminador é um (tipo de) estudo sobre as “vontades”. O que faz alguém seguir em determinada direção? Porque há quem se sinta preso a um emprego ou a um casamento? Em tese, estão todos enleados num arame inexistente.

Há o caminho inverso. No filme, discretamente. Na vida, em abundância. O que acontece com quem não consegue entrar? E quais as consequências de estar “preso” do lado de fora, e não de dentro?

No futebol brasileiro, os treinadores nacionais recorrem a este círculo (não tão) fechado para laminar o currículo. Alguns, ao se descobrirem incapazes de entrar — e não de sair, como no filme de Buñuel — , acabam sufocados pela máscara.

Não é necessariamente o caso de Hélio dos Anjos, 57 anos, natural da mineira Janaúba. Mas parece. O comandante do Goiás não gesticula num banco de reservas de um dos 12 grandes do país há quase 15 anos — o último foi o Vasco em 2001. Incapaz de evitar o rebaixamento do Caxias no Campeonato Gaúcho deste ano, o técnico tomou posse no dia seguinte no campeão goiano. No fim de semana, depois de derrotar o Palmeiras na matinê do Brasileirão, Hélio dos Anjos decidiu engrenar um desabafo. Ao que tudo indica, para embicar a bandeira do produto nacional.

“Tem treinador que tira foto na frente do Camp Nou, vai no Real Madrid, diz que fez um estágio (…) Lá fora, quando se usa determinado estilo de jogo, é um gênio. Se é um técnico brasileiro, está ultrapassado. Meu estilo de jogo foi uma homenagem a todos os técnicos brasileiros.”

O técnico do Goiás deve ter imaginado que, por levar a sua equipe à segunda colocação do Brasileiro na terceira rodada, atingiu o auge na temporada. Imaginou certo. Nada indica que Hélio dos Anjos carregará o clube a distância mais cômoda. Não pelo Goiás, que até registra confortável histórico nos pontos corridos, mas pelo currículo do próprio Hélio. De 2003 para cá, o técnico acumula cinco rebaixamentos, como destrinça reportagem do subeditor Braitner Moreira no Correio Braziliense. Na lista de aproveitamento, durante o mesmo período, o treinador está abaixo de PC Gusmão, atualmente na Penapolense-SP; Geninho, que anda desempregado; e Roberto Fernandes, hoje à frente do América-RN. Rivaliza ali, com Ricardo Drubscky e Mário Sérgio, o que não deixa de ser uma elegia aos técnicos brasileiros.

Luis Buñuel assina outro filme igualmente importante, que talvez explique, em parte, a buzina de Hélio dos Anjos. Em O discreto charme da burguesia, seis amigos se unem para um jantar, em que são constantemente interrompidos. Nos lampejos da realidade, todos se odeiam e fingem se gostar, escondendo o que realmente pensam em prol de um lugar à mesa, por assim dizer. Buñuel tinha razão: estar preso, do lado de dentro ou do lado de fora, não faz bem a imagens excessivamente (es)forçadas.

Esta coluna é originalmente publicada às terças no Correio Braziliense

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Two decades of hardcore journalism in a past life; now Digital Media PhD candidate @ University of Porto, coffee taster and vinyl aficionado

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