É chute, adianto, mas deve ser uma câmara de tortura enfrentar um almoço, um café, um mate rápido que seja, com este Juvir Costella, secretário de Esporte e Turismo do Rio Grande do Sul. O sujeito que, em quatro meses, consegue atormentar um jogador de vôlei e uma miss Brasil, a ponto de os dois pedirem demissão dos respectivos cargos comissionados, não está no melhor das suas faculdades sociais.

Azar. Fosse Costella um camarada afável, encaminharia ideia esplêndida para alavancar o turismo do Rio Grande. Setecentos e oitenta quilômetros de carro, costurando seis cidades, num roteiro de batismo infalível: a Rota dos Treinadores Gaúchos, ou dos Técnicos, o que resulta na mesma sigla (RTG). Soa troça, mas o empreendimento é menos disparatado do que aparenta. Afinal, trata-se de um estado que tenta, com esforço, popularizar tanto a Rota das Gemas e Joias — que sai de Ametista (a cidade, e não a gema) e vai até Soledade — quanto a Rota das Águas e Pedras Preciosas — que também começa em Ametista do Sul e acaba em Vicente Dutra. A RTG é fichinha diante de tanta preciosidade.

Dividida em três dias, a Rota dos Técnicos Gaúchos parte de Taquara, na região metropolitana de Porto Alegre, terra de Oswaldo Brandão, primeiro gaúcho a dirigir a Seleção Brasileira, e segue até Caxias do Sul, onde nasceu Adenor Bachi, a.k.a. Tite. Animado, o ônibus ruma a Passo do Sobrado (Mano Menezes) e, de lá, a Passo Fundo (Luiz Felipe Scolari). No último dia, os turistas poderão conhecer Ijuí, berço de Dunga, e, exaustos (compreensivelmente), encerrarão os trabalhos na Santa Rosa de Argel Fucks. E Cláudio Coutinho?, se desespera o prefeito de Dom Pedrito. E Carlos Froner?, esperneia um vereador de São Borja.

Certeza que até a miss (preconceito, retiro), que até Costella (preconceito, mantenho) já pensou em itinerário mais civilizado: uma rota turística com escritores gaúchos a desbravar Alegrete, Cruz Alta, Quaraí, Santiago etc. Mas isso significaria incluir Porto Alegre — que, convenhamos, tiraria o charme da coisa — ou excluir Moacyr Scliar, Luís Fernando Veríssimo e João Gilberto Noll — que tiraria o charme da vida.

Além de traçar linha geográfica mais sensata do que a dos escritores, a agora insigne rota de técnicos permitiria entender — ainda que em gauchês — como o estado produziu, nos últimos oito anos e duas Copas, uma quantidade desproporcional de treinadores que ascenderam à Seleção Brasileira. Do fim da década passada e percorrendo esta, que já cambaleia pela metade, não houve um mísero que não fosse gaúcho: Dunga, Mano, Felipão e Dunga de novo. Não bastasse, aquele que mais se aproxima do conceito movediço da unanimidade também é de lá: Tite. Ironicamente, o único que nunca comandou essa tão gaúcha Seleção.

É a ironia, e não o Sul, o nosso país.

Podia ser mais debochado. Podia ser Argel Fucks. Soa parvoíce, mas é precaução. Rinaldi, coordenador de seleções da CBF, também é gaúcho e a lógica de Argel funciona numa espiral fora de todas as curvas: vai que sai um mate. “No segundo turno, só estamos atrás do campeão, desde o dia em que pisei aqui”, iniciou o técnico do Inter o seu discurso, depois de ganhar o Gre-Nal, há duas rodadas. “Disse que o alvo seria eu. Estão batendo em mim. Mas, quanto mais batem, mais forte eu fico”, bateu ele mesmo, só que no peito. Para, em seguida, completar: “Concordo que a gente não está jogando um futebol vistoso”, na única conclusão inquestionável da entrevista. A prefeitura de Santa Rosa alardeia no site oficial que a cidade “integra natureza, eventos e celebridades para atrair visitantes”. Sei que estão a falar de Xuxa, mas desconfio que Argel Fucks será de igual serventia.

Não é difícil, por exemplo, ver Fucks e enxergar Dunga. O cabelo, o sotaque, a vocação para sorrir como se aquele movimento provocasse espasmo nos rins e, claro, a malemolência típica para lidar com críticas. Mas vejo Fucks e só lembro do conterrâneo Noll: “A realidade está brincando de esconde-esconde comigo(…) Os meus sentidos se comportavam dispersos, não me permitiam fixar as imagens do mundo, concatená-las”, embarca o escritor, no seu livro “ruim”, Canoas e marolas. Lembrança que estabelece certo antagonismo entre Argel, o treinador, e Noll, o escritor. Não que Fucks tenha o mérito de algum lado “bom” — caso o Inter vá ao G-4, o técnico alcançará o maior feito da carreira — , mas seria uma bênção de São Pedro se a obra “ruim” do treinador fosse como a de Noll.

Argel se tornou técnico há pouca coisa, em 2008. Nesses sete anos, ele dirigiu — pode chutar, você vai errar — 17 equipes. Só em 2011, foram quatro: Guarani, Botafogo-SP, Caxias e Brasiliense. Por enfado ou por protesto — vai saber — , no time do DF, todos os treinos se limitavam ao pretérito e contraproducente coletivo. O clube passou constrangimento na Série C e a turnê nacional de Fucks — ao menos a de 2011 — acabou por ali. Por aqui, no caso. Por enfado ou por protesto, foi demitido com quatro jogos, três derrotas e 8,3% de aproveitamento. Oito vírgula três.

Argel tem 17% de chances de classificar o Inter à Libertadores. É um risco. Não para o São Paulo, também candidato à vaga, mas para a Seleção. Se conseguir a proeza, outros riscos se avolumam, calcula o matemático Tristão Garcia, também gaúcho, que jura não ter beneficiado o conterrâneo nas contas. Tristão, eu não sei, mas Fucks se aproveita do fato de que a realidade, essa histriônica, adora mesmo brincar de esconde-esconde. Um dia irreal e um gaúcho idem é tudo o que (a gente não) precisa.

Esta coluna é originalmente publicada às quintas no Correio Braziliense

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