Ser jovem é refestelar-se na técnica do desapego. Se ninguém com graduação acima da minha — acadêmica ou alcoólica — escreveu essa frase, deveria. Posso providenciar indícios. Se alguém seguir em dúvidas, posso providenciar aposta. Caso uma nota de R$ 100.

A indústria fonográfica, exemplo eterno, sustenta graciosamente a tese. Sob sua batuta, nos tornamos peritos em coleções — (pilhas de) LPs, (caixas de) CDs e (gigas de) arquivos em MP3. Dia desses, Spotify, Deezer e afins estacionaram ali em frente e espetaram a bandeira do desprendimento. Larga desta música, ela não te pertence. A Associação Americana de Gravadoras (RIAA) não conseguiu em anos o que o streaming fez em seis meses.

Do que os novos serviços matam sem dó, vamos sentir falta do Chumbawamba e daquele velho truque batizado de Greatest Hits, compilações com os maiores sucessos (ou “sucessos”) de uma banda, empurradas no forno para amealhar o derradeiro tostão. Há quem despreze. Mas paciência: em meio à reciclagem desmedida, é possível pinçar combos excelentes. Smash hits, de Hendrix, por exemplo, lançado em 1969, quando ele ainda era vivo, apresenta-se uma bênção disfarçada. Hot Rocks 1964–1971, dos Stones, à revelia do grupo, idem. Tem mais. Tem bem mais. Há aqueles que, de tão bons, nem desconfiamos que se tratam de coletâneas: Standing on a beach, do Cure, e Legend, com Bob Marley and the Wailers. Vai caçar Satisfy my soul no Rhapsody, depois volta aqui.

Às vezes, argumentos sonoros fraquejam no poder de convencimento. Para casos assim, há sempre os futebolísticos, que esses não falham jamais. Reportagem de Marcos Paulo Lima, publicada na edição da última terça-feira do Correio Braziliense, calculou quanta fé o novo técnico do Vasco, o ex-lateral Jorginho, precisará, caso queira proferir o milagre da salvação no Brasileiro: 57,9% de aproveitamento nas 19 partidas que restam. Parece plausível, mas é uma Scania. O próprio Jorginho, que já dirigiu quatro equipes em Brasileiros, tem média de 40,2%. Na melhor performance, à frente do Figueirense, em 2011, emplacou 51%. Se serve de consolo, não há técnico no Brasil com aproveitamento acima desses 57,9% em jogos do Brasileiro — o pimpão da lista, Levir Culpi, do Galo, agora que bateu nos 57,7%.

De onde se conclui que não há solução para o Vasco? Besteira… Ainda que não exista carreira no Brasileirão capaz de digitar o número com o qual sonham os cruz-maltinos, está ali, escondido nos Greatest Hits, o motivo da fé. Os Melhores Momentos de um técnico em determinada edição do Campeonato Brasileiro seguem a mesma receita da adotada pela indústria fonográfica. Ignora-se bobagens produzidas em edições anteriores e posteriores e recorta-se, cuidadosamente, o período em que ele arrancou da lama para a glória (ou para o meio da tabela, que já é uma felicidade sem tamanho).

Poupando a pesquisa (e eventuais fanfarronices), são quatro as arrancadas lavradas em cartório no Brasileirão de pontos corridos: Cuca, duas vezes, Leão e Muricy Ramalho. Em 2003, Cuca assumiu o último colocado Goiás na 11ª rodada. Foram 36 partidas, com 17 vitórias, oito empates, 11 derrotas e 54,2% de aproveitamento. Acabou em nono.

Três anos mais tarde, Leão chegava ao Corinthians no lugar de Geninho, que perdia até para Waldemar Lemos (o próprio), se debatendo nas últimas posições. Também terminou em nono, depois de vencer 11 jogos e empatar sete, com 57,97%.

Cuca de novo, na famosa arrancada do Flu em 2009, beneficiou-se, desta vez, do tiro curto. Eram 16 partidas apenas, em que o técnico ganhou metade, empatou seis e perdeu duas, atingindo 62,5% de performance. Nem o campeão daquele Brasileiro, o Flamengo, passou de 60%.

Por fim, Muricy Ramalho, em 2013, retornou ao São Paulo para tentar retirar o tricolor do acidente de trem provocado por Autuori. Pegou o time em 18º, exatamente na virada do turno, e, em 19 partidas, venceu 10, empatou duas e resgatou o hexacampeão brasileiro, com 56,14% dos pontos disputados.

Os Greatest Hits são uma invenção tão engenhosa, que conseguem até deturpar (melhorar, melhorar…) as estatísticas. Dessas quatro coletâneas, duas salvariam o Vasco. Eis, torcedor, enfim, um número que é música para os ouvidos: por esse ponto de vista, as chances de o clube carioca não cair neste Brasileirão estão meio a meio.

Esta coluna é originalmente publicada às quintas no Correio Braziliense

Two decades of hardcore journalism in a past life; now Digital Media PhD candidate @ University of Porto, coffee taster and vinyl aficionado