A não ser por uma associação debochada em um artigo do jornal canadense Globe and Mail, há três anos, e por um tuíte do crítico do New York Times James Poniewozik, coisa de duas semanas, não existe relação formal entre o escritor Jonathan Franzen, autor de dois dos 10 melhores romances do século 21, e o roteirista e produtor Aaron Sorkin, responsável pela garrulice de A rede social (2010) e do recém-lançado Steve Jobs (2015). Desperdício. Já há alguns bons anos, a dupla de cinquentões americanos, em maneirismos distintos, se entranha na mesma (ingrata) jornada: educar a histeria. Quem sabe juntos?

Sorkin é menos discreto. Suas citações espalhadas em palestras de US$ 15 mil impelem uma coletânea de ganchos de direita (sempre de direita), quase tudo paquerando o clichê: “Cada vez mais, nós esperamos cada vez menos uns dos outros” e/ou “Tentar adivinhar o que o público quer é normalmente uma péssima receita para se escrever algo bom” se soma(m) a uma lista telefônica de impressões cozidas sob o fogo brando do fastio. Em sua última incursão televisiva, a delambida Newsroom, que a HBO transmitiu entre 2012 e 2014, há metalinguagem vertical:

“Estou em uma missão para civilizar, e o progresso é lento”.

Franzen mira outra abordagem. Talvez em função de um artigo na Harper’s, (duas) décadas atrás, em que comprometeu-se a não mais tentar impôr reflexão aos leitores (coisa que não cumpriu, claro), o autor de As correções (2001), Liberdade (2010) e do ainda não lançado no Brasil Purity (2015) se esbalda nas microexpressões. No famoso (e controverso) estudo do psicólogo Paul Ekman, o truque das microexpressões está em identificar asteriscos corporais de menos de um décimo de segundo. Na estratégia de Franzen, não é o tempo que importa, mas a sutileza da patada: não se iluda, você está sendo julgado (e condenado) a cada referência falsamente despretensiosa, a cada ironia engenhosa… são as pequenas correções, liberdades e purezas da (sua) vida.

Há uma razão (meio óbvia) que explica por que, independentemente da interpelação, essas missões tendem ao fiasco. Consciência requer humildade, e humildade está longe de corresponder ao tatibitate do Houaiss. Eis uma recente entrevista de Franzen ao britânico Guardian: “Felicidade é o momento em que você está fazendo algo em que é bom”. Humildade se oferece quase como um paralelismo dessa conclusão. Repetir abobadamente que ainda precisa “aprender muita coisa na vida” não é ser humilde, é homologar o óbvio. Ter consciência de todas as (infinitas) limitações naquilo em que você é bom — ou acredita ser — , isso, sim, configura o começo do caminho.

Com mais frequência nos últimos 12 meses do que nos últimos 12 anos, os técnicos do futebol brasileiro se uniram em uma marcha midiática pela estabilidade no emprego. O que não deixa de ser uma proeza, se você achava que ostentação real era risco zero de demissão a R$ 33,7 mil mensais de teto. A tese é uma só. A variação está no grau de autocomiseração: do mais radical — um time que mandar o profissional embora não pode contratar outro da mesma divisão até o fim do campeonato — ao mais brando — um time que mandar o profissional embora não pode contratar outro até quitar as pendências com o demitido.

Luxa e demais partidários, perdão, mas a tendência é sempre discordar. Não por causa dos treinadores (imagine um ano de Joel Santana no comando do time rival…), mas pelo contracheque: quem recebe R$ 600 mil, todo dia 1º, precisa de INStabilidade, não só no emprego, mas na vida.

Acontece que todo homem tem um preço e o meu é baixo. Se, nos próximos 12 meses, qualquer técnico brasileiro, abordado por um clube da elite, recusar o convite simplesmente por não se achar qualificado para treinar aquela equipe, presenteio o abaixo-assinado moral dos treinadores com a minha rubrica. Basta uma frase.

“Obrigado, mas nesse momento não tenho competência para assumir o comando de um time desse tamanho”.

Exagero no folclore? Sempre. Mas sem memória eidética, temos Ricardo Drubscky, Fluminense; Cristóvão Borges, Flamengo; Marcelo Fernandes, Santos. E, claro, Dunga, Seleção Brasileira. Isso em 12, 14 meses. (Fernandes foi campeão paulista, estou ciente. Chamusca já emplacou uma Copa do Brasil, não significa nada).

Certeza que há quem goste de Chamusca. Ou de Dunga. Franzen, em Liberdade, explica: “Pessoas legais não se apaixonam necessariamente por pessoas legais”. No futebol, então, tudo é babel. O torcedor ama tanto o seu clube que passa a adorar determinado treinador sem medida. Os tricolores do Rio, por exemplo, deliram com Parreira, os do Rio Grande do Sul, com Felipão, e os de São Paulo, com Muricy. Na ardência dessas paixões, surgirão exemplos de técnicos que recusaram convites, mesmo quando estavam desempregados. Verdade, mas dizer não a uma equipe por admitir não estar à altura dela é uma coisa; recusar para se preservar tem outra definição. E falsear humildade sempre foi uma contravenção muito mais grave do que a falta dela. Sorkin avisou mais cedo: “O progresso é lento”.

Esta coluna é originalmente publicada às quintas no Correio Braziliense

Two decades of hardcore journalism in a past life; now Digital Media PhD candidate @ University of Porto, coffee taster and vinyl aficionado

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