King James e a real arte contemporânea

Críticos, de um modo geral, são chatos. Mas chatice, assim como arrogância (humildade, graça, beleza…), é qualidade de quem recebe e não de quem emite. E quanto mais referência e discernimento os críticos incorporam ao longo dessa aborrecida vida, mais chatos eles parecem. Robert Hughes, por exemplo.

Para um entediado, Hughes levou vida espaventosa e divertida: com um pé na contracultura e outro na lama. Na labuta, porém, a lupa foi bem menos condescendente. Sua diversão, a partir de determinado ponto, era desmontar (quase) tudo o que conhecemos como arte rascunhada depois do século 19, incluindo nesse extenso etc Marcel Duchamp, Andy Warhol e Anish Kapoor.

“Nenhuma pessoa séria, por mais que se empolgue com a arte contemporânea, pode acreditar que ela, um dia, será comparada àquilo que foi produzido entre os séculos 16 e 19.”

É só o aquecimento. Na mesma entrevista, Hughes emoldura Warhol a seu modo — “a reputação mais ridiculamente superestimada do século 20” — e escarnece Duchamp — “ser o pai dessa bobagem chamada arte conceitual não é uma distinção de que se orgulhar”. Ele estava certo o tempo inteiro, embora isso pouco afete os fãs de Andy Warhol ou a conta bancária de Kapoor.

Ao contrário das artes plásticas — e da música clássica, apesar de Hughes não ter predileção pela causa — , o esporte escapa dessa aflição temporal. São os melancólicos, e não os pragmáticos, a fisgar o cabide saudosista. As finais da NBA, que seguem na noite de hoje em terceiro embate, com duas prorrogações em dois jogos até agora, parecem distante de conclusão segura (nada com duas prorrogações é seguro na vida). Mas Lebron Raymone James, 30 anos e velocímetro constante a 41,5 pontos por partida, vai talhando o nome em fonte cursiva.

Na quinta disputa de título consecutiva — duas vitórias e dois vices — , Lebron é o líder em média de pontos, em assistências e em percentual de acertos de cestas de três nesta finalíssima. Ainda registra a segunda melhor marca em rebotes por jogo. Na decisão entre Cleveland e Golden State, quando se invoca as efígies de Michael Jordan e Magic Johnson, ninguém caça fantasma, elas só referendam a monstruosidade do artista contemporâneo.

No jogo de domingo, Lebron carimbou um triplo-duplo — performance de dois dígitos em pontos, rebotes e assistências. No reinado Jamesiano da noite, foram 39, 16 e 11, respectivamente. Na história das finais da NBA, essa é apenas a segunda vez que um atleta consagra um triplo-duplo com 39 pontos ou mais. A outra ocorreu quando Warhol ainda curtia a vida adoidado e os Beatles tocavam juntos.

(Stephen) Curry pode serpentear coelhos do seu boné preto dos Warriors e destronar Lebron? Pode. Mas a diversão, e consequentemente a chatice, do crítico não está em premonições peremptórias, e sim em indeferir as virtudes sob qualquer estigma. “Quanto maior o artista, maior a dúvida. Confiança em excesso é algo destinado aos medíocres como prêmio de consolação.” Hughes estava certo o tempo inteiro.

Esta coluna é originalmente publicada às terças no Correio Braziliense

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Two decades of hardcore journalism in a past life; now Digital Media PhD candidate @ University of Porto, coffee taster and vinyl aficionado

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