O inglês Nick Hornby, que derreteu a meninada nos anos 1990, engajou-se na criatividade que só a crueza e o destemor da juventude insuflam e, num espaço de três anos, passou às mãos da literatura contemporânea dois inspirados livros: Febre de bola, de 1992, e Alta fidelidade, de 1995. (Se nunca agradeci, eis). Com dupla cajadada, Hornby matou 75% dos coelhos da linha de raciocínio do jovem médio à época: sexo, futebol e roquenrol.

Alta fidelidade tem mais passagens memoráveis do que páginas. Em uma delas, o personagem principal alinha os cinco empregos dos sonhos:
1) Jornalista da Rolling Stone, entre 1976 e 1979, 2) Produtor da Atlantic Records, entre 1964 e 1971, 3) Músico de qualquer tipo, exceto clássico e rap, 4) Diretor de cinema e 5) Arquiteto/Dono de uma loja de discos.

Sério, qual predisposição nessa vida poderia fazer uma carreira no jornalismo superar os clássicos do quero-ser-quando-crescer: roqueiro e diretor de filmes? Há algumas hipóteses. Umas mais divertidas do que outras. Ser jornalista de uma revista de música nos anos 1970 — ou em qualquer década do século passado — , de fato, carrega mais do que um fascínio primário. Tem um enquadramento único, dissociado do consciente coletivo, que, hoje, inexiste. Um expert dos anos 1970, 1980 — na música, na ciência, no futebol, não interessa… — reinava na conveniente longanimidade da solidão da informação. Ninguém mais viu, ninguém mais soube, ninguém mais confiscou para si aquele momento. Bons tempos, não sei; mas que — certeza — não voltam jamais.

É a “massificação” da economia de nicho, da informação customizada, que amplia o campo de busca. Hoje, há mais torcedores do Lyon em Carapicuíba, em São Paulo, do que em Guingamp, na França. O número de brasileiros que ignoravam a existência de clubes estrangeiros caiu de 60% em 2010 para 45% em 2013. Nesses tempos braseados, quando o meia Ederson foi anunciado pelo Flamengo, no fim de julho, havia mais informação qualificada sobre o ex-jogador da Lazio nas mesas do Jobi, no Leblon, do que em toda a mídia especializada do Rio. Chegamos, enfim, na concretização do mais amplificado clichê do esporte: não tem mais bobo no futebol.

Quer dizer, tem. E ficou mais fácil identificá-los. Até porque a expertise midiática deu para se assanhar em ideologias muito próprias na mesma proporção em que se esborracha. Os técnicos Juan Carlos Osorio (São Paulo) e Cristóvão Borges (ex-Flamengo), cada um em seu canto, foram alvos móveis de bons exemplos nos últimos dias. Osorio perdeu um jogo atrás do outro, enquanto um grupo de dirigentes são-paulinos e — durma-se com uma chocarrice dessas — jornalistas perdiam a compostura. As chineladas no treinador colombiano — via torpedo de celular ou “participação ao vivo direto de São Paulo” — não encontravam eco justamente no público-alvo: a torcida. A maledicência, além de pouco atrelada a argumentos reais, não comoveu meia-dúzia. Mas, ninguém pode negar, os especialistas lutaram até o fim. Azar: no campo (virtual), que é onde se decide boa parte do jogo hoje, os torcedores deram de ombros e lançaram um contra-ataque com a tag #fechadocomOsorio. Em dois dias, o mantra teve alcance de 1,1 milhão de pessoas só no Twitter. Osorio não só seguiu no comando da equipe como virou o mata-mata contra o Ceará.

Na saga de Cristóvão Borges à frente do Flamengo, os papéis se inverteram. Era a torcida que pedia angustiadamente a demissão do técnico por justa causa, ao passo que os experts defendiam a imortalização do rapaz nos quadros da Gávea. Só o que não se alterou foi a argumentação inconsistente. Formar opinião é bacana. Mas impôr não seria mais prático? A torcida nem se coçou. E das arquibancadas reais — mais do que das digitais — fez-se a luz (vermelha, no caso). Não que a internet não tenha cooperado — a tag #foraCristovao atingiu 840 mil no Twitter em uma semana — , mas o Maracanã foi quem dispensou Cristóvão. No grito.

O livro de Nick Hornby que especificamente trata de futebol, Febre de bola, distribui o jogo com tanta precisão, que é capaz de espelhar qualquer clube do mundo, embora tenha o Arsenal como personagem, e qualquer torcedor, em suas mais insanas lógicas (nossas, nossas).

“Seja tolerante com aqueles que descrevem um momento do esporte como o melhor da sua vida. Não é que nos falte imaginação, nem temos vidas tristes e áridas. É apenas que a vida real é mais pálida, mais maçante e contém menos potencial para o delírio.”

Uma ironia a respeito de Febre de bola é que esse torcedor, o próprio Nick Hornby na autobiografia — embora ainda maioria, evidentemente — , nos últimos 25 anos (desde o lançamento do livro), passou a dar lugar a uma figura mais concentrada e (muito) mais informada. Enquanto do outro lado, os chumbados experts, ao que parece, tomaram o caminho contrário, com excesso de potencial para o delírio.

Esta coluna é originalmente publicada às quintas no Correio Braziliense

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Two decades of hardcore journalism in a past life; now Digital Media PhD candidate @ University of Porto, coffee taster and vinyl aficionado

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