Em desembestada carreira, segui pelos corredores. E — previsível — fiquei sem fôlego coisa de três minutos. Ela estava serena… Era um aroma, afinal. Sorriu, flutuou, deslocou o calor… Passou a mão na minha cabeça: “Calma. Temos tempo…” Não disse, mas eu ouvi. Meu drama era outro. Içei o último Jogo sujo da prateleira baixa. Andrew Jennings, gol(s) de letra. “Foram todos presos”, excedo-me. A mesma foto de José Maria Marin, padrão mugshot, vira figurinha da Copa em canais fechados, abertos e semi-abertos de tevê. Avisei: todos presos. “Tem aí O lado sujo do futebol, para fazer par com esse aqui?”, chamo a vendedora. É uma feira, não uma livraria, alguém me alerta.

Enfim, estaciono, fôlego recobrado. “A Fifa…”, tento explicar melhor. E distribuo palavras como “escândalo”, “propina” e “Copa do Mundo” em uma cesta básica de adjetivos, para ver se consigo atenção. Ela sorri e pisca em milissegundo. E embarca numa Hay-on-Wye particular, que só equivale à original na poeira. Contas devassadas, vovôzinhos de roupão presos num hotel 12 estrelas, você entendeu, certo? “Não, agradecida, estou feliz assim…”

Enquanto ninguém corrobora minha condição, já cardíaca a essa altura, saio em busca de raridade: Who rules the people’s game?, uma primeira edição assinada, vai saber… A obra é de 1988, o tema, atualíssimo, lembra-me a secretária de Justiça dos Estados Unidos, Loretta Lynch, em entrevista ao vivo. Richard Weber, chefe da Receita americana, quase não se aguenta: “Copa do Mundo da fraude”, “cartão vermelho para a Fifa”… São mais clichês do que em toda a minha vida amorosa, mas não importa — Jennings, meu velho, sempre estivemos contigo. Logo chega em Valcke (chegou), logo chega em Blatter (chegou)…

Loretta e Weber falam de lá, eu balanço a cabeça de cá, como se ritmasse uma música. Minha companhia, desconfio, já desistiu de mim. Só a avisto de longe, em meio aos vãos. Fuça como criança, faz comentários para ela mesma, mas que eu consigo escutar, e escolhe pedaços de uma biblioteca minha que, percebo, é para ela também. Aos poucos, mesmo sem notar, construímos estantes imaginárias… De lá, o Grande Sertão pega fogo; de cá, certeza que há uma fumaça de Fifa corrupta nesse Outcasts: The lands that Fifa forgot. Tem "Fifa" e "forgot" no título, vou levar…

São dois passos para trás enquanto ela aprecia a fantasiosa coleção, que está no início, suponho. “Nau tangida a vela e vento”… Não bastasse, me aguarda numa esquina suspensa e abre outro livro à minha frente, sem esperar para ver o efeito. Acho que vou desistir de me ocupar e embarcar no desatino…

“Você está longe, não é?”. Respondo: “É, não estava aqui. Mas isso não significa que eu não estava com você”. E ela sorri mais uma vez. “Até que deu-se o desmastreio.” Agora é o relógio que dispara em desembestada carreira. E me empurra para a realidade sem cerimônia…

O FBI vai falar. Fifa, Marin, CBF, Coringão e Gamão do povão, exagero sem limites. Ninguém se emociona. Eu perco o controle e me atiro em meio às prateleiras: empresas privadas, dinheiro público, goteiras num estádio de R$ 1,5 bilhão… nada? Agarro-me ao meu novo amigo, Jogo sujo, recente como um novo amor, na esperança involuntária de que ele me dê uma pista sobre como mensurar a gravidade da coisa a um ponto de histeria coletiva.

É ela, sempre, quem desata o nó: “Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo”, cita, balançando um Guimarães à minha frente. Quando nada acontece, há um milagre ou uma excrescência moral em curso. Mas hoje, só hoje, meu caro Guimarães, estou mais com Jennings: por que veríamos, se não havíamos visto até agora?

Esta coluna é originalmente publicada às terças no Correio Braziliense

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Two decades of hardcore journalism in a past life; now Digital Media PhD candidate @ University of Porto, coffee taster and vinyl aficionado

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