Os estaduais são ótimos para os pequenos. As pessoas, não os clubes

Uma das frases mais divertidas da civilização ocidental sustenta que “uma mentira contada mil vezes se torna verdade”. Pândega que vem acompanhada de graus distintos: quando a citação é atribuída a Goebbels, ganha uma feição. Assim que passa a Lênin, outra. E no momento em que vem cravada na testa de Hitler, desencadeia proporções quase alcoólicas. Metalinguagem, vai saber — não há comprovação histórica que nenhum deles tenha dito tal frase.

Considerado um dos pais da psicologia moderna, o americano William James tem um par de aspas parecido:

“Não há nada tão absurdo que não possa ser tomado como verdade se repetido com frequência suficiente”.

Caso que pode ser mentira também.

No futebol brasileiro, os estaduais perambulam por essa estrada que margeia a realidade. Quando Bonsucessos e Penapolenses sobem ao gramado, ainda na ressaca de janeiro, um pequeno panelaço propaga seu batuque pelo fim dos torneios locais. Dura pouco — quatro rodadas; cinco, se tanto. Até que alguém se espante, como ocorreu neste domingo: “Não encheria o Morumbi nem com os portões abertos”, sapecou um dirigente tricolor diante das 18 mil pessoas no clássico do fim de semana entre São Paulo e Corinthians.

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A discussão — eterna como o 7 x 1 — quase sempre esbarra em duas abobadas teses. Uma sobre o “charme” dos torneios. Outra que jura de pés juntos: os estaduais são fundamentais para os times pequenos. Realmente “não há nada tão absurdo que não possa ser tomado como verdade se repetido com frequência suficiente”.

Há pouco (ou nada) que justifique essa lógica de que a razão de ser dos estaduais está na sobrevivência dos pequenos. Contrariá-la, por outro lado, é mole. Os estaduais deste ano já presenciaram 19 clássicos, com média de 17,5 mil torcedores — público que não enche o Bezerrão, aqui em Brasília. Botafogo x Flamengo, com 44 mil, abre a lista; Goiás x Atlético-GO, domingo agora, fecha, com 1.900 pagantes. Mas a tese diz que os estaduais são imprescindíveis àqueles fora do G-12. Vejamos, então: G-12 fora, restariam 11 clássicos em 2015 (e o Santinha, time bom de encher estádio, ainda jogou duas vezes). Mesmo assim, a média despenca de 17 mil para 12 mil. Um charme, sem dúvida.

Existe um motivo para o Campeonato Paulista ter 113 anos e o Brasileirão, 44 (69 de diferença). Os estaduais surgiram quando os clubes brasileiros eram — ah, as obviedades… — regionais. Hoje, muitas dessas equipes, apesar dos estaduais, ultrapassam os limites do país.

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Seria como se o Barcelona dedicasse um terço da temporada ao Catalunhão. Ao menos, para dar uma força ao Pobla Mafumet, vice-líder do Grupo 5 da Terceirona espanhola. A Catalunha, que é quase um país a parte, até tem copa própria, mas ela, nem de perto, funciona como qualquer um dos nossos estaduais: para o Barça, por exemplo, o torneio dura dois fins de semana.

Nesse jogo, de um interesse que só serve às federações, e não aos clubes, quanto mais o torcedor brasileiro quer que seu time se aproxime do Barcelona, mais eles são puxados para se assemelharem ao Pobla Mafumet. Quem sabe viramos o placar? Um belo dia, um Cariocão conquistado mil vezes pode até valer como um título de verdade.

Esta coluna é originalmente publicada às terças no Correio Braziliense

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Two decades of hardcore journalism in a past life; now Digital Media PhD candidate @ University of Porto, coffee taster and vinyl aficionado

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