Parabéns, mas não é a burrice máxima

A frase do boxeador Emile Griffith é tão poderosa que reveste 40% da capa da biografia lançada há cinco, seis semanas pelo jornalista britânico Donald McRae.

“Eu mato um homem e a maioria das pessoas me perdoa. Eu amo um homem e muitos dizem que isso me torna uma pessoa maligna.”

Foram algumas as vezes em que o boxe de Griffith assomou feroz assim — não à toa, ele levantou seis vezes o título de campeão do mundo — , mas não bastou para aqueles tempos suados. A sexualidade protagonizou a obra (do autor) e a vida (do pugilista), não o esporte.

Griffith subiu ao ringue 112 vezes — o mais notório dos embates, contra o cubano Benny Paret. Há dois motivos para a reputação da luta. Um deles: Paret provocava Griffith gritando “Maricón, maricón”. O outro: Griffith matou Paret e isso não é modo de dizer.

Na peleja de abril de 1962, o cubano Benny Paret deixou o Madison Square Garden, em Nova York, direto para o hospital St. Luke. Ficou 10 dias em coma e sucumbiu. Griffith nunca abordou abertamente as ofensas de Paret até (bem) depois da aposentadoria, mesma época em que cunhou a frase sobre amar e matar um homem. Embora a presença na comunidade gay não se tratasse exatamente de um segredo, o boxeador não poderia declarar-se homossexual porque, em 1962, isso era uma transgressão prevista em lei.

Fosse hoje, qual o alcance da frase que marcou a carreira, a vida e a biografia de Griffith? A audiência do mundo, nesses tempos igualmente suados, se mede pelo número de joinhas, corações e afins. E esse é o menor dos nossos suores.

Na última semana, essa quantidade (des)medida de afeição nas redes sociais esticou a abrangência do artigo assinado pela jornalista brasileira Eliane Brum no El País. Em Parabéns, atingimos a burrice máxima, a autora do texto recupera a patifaria em torno do caso Enem/Simone de Beauvoir para, na falta de definição melhor (falha minha, não dela), manifestar seu assombro com o país.

“Atacaram a filósofa francesa porque o Enem colocou na prova um trecho de uma de suas obras, começando pela frase: ‘Uma mulher não nasce mulher, torna-se mulher’. Bastou para os burros levantarem as orelhas e relincharem sua ignorância em volumes constrangedores.”

Beauvoir e Brum, certíssimas as duas. Nas ideias e, letrinhas adiante, na forma. Não é de se estranhar que o artigo tenha feito tanto barulho — embora tenha falhado no constrangimento.

O contratempo do texto que se amontoou nas timelines país afora está na premissa. Em Parabéns, atingimos a burrice máxima, como o título franqueia, Brum parte do pressuposto que nunca fomos tão burros. Nessa lógica, o que seria um belo bofete se dissolve em condescendência. E acaba empacotado num certo otimismo obtuso, que se desmente facilmente. Sempre fomos tão burros. Na verdade, fomos mais.

Escreve a articulista:

“Episódios semelhantes à ‘moção de repúdio’ a Simone de Beauvoir ocorriam esporadicamente em rincões afastados e logo eram ridicularizados. Hoje, acontecem na Câmara de Vereadores de uma das mais ricas cidades de São Paulo, que abriga várias universidades, entre elas a Unicamp. Cadê os intelectuais? Rindo dos burros nas cantinas universitárias?”

Tentadora a tese; improvável, no entanto. São Paulo abriga, além da capital, sete das 20 cidades mais ricas do país. “Episódios semelhantes à ‘moção de repúdio’ a Simone de Beauvoir” não ocorriam em “rincões afastados”. Sempre estiveram por ali, tanto nos rincões “vizinhos” — Osasco, Guarulhos, Campinas, São Bernardo, Barueri, Santos, São José etc — quanto nos “distantes”. Na Câmara de Vereadores de Campinas, a moção de repúdio — um gesto que, na prática, significa neca — acabou aprovada por 25 x 5. Na Unicamp de Brum, ela quer saber se os intelectuais estão rindo dos burros. Na Unicamp da vida real, a dúvida é outra: em caso de “moção” semelhante, qual seria o placar numa votação entre estudantes escolhidos aleatoriamente?

As “hordas de burros que ocupam espaços institucionais, bancadas de TV, pagos com dinheiro público, pagos com dinheiro privado” às quais se refere Eliane Brum não se anabolizaram até esse tal ponto “máximo”. Eles nunca reverberaram tanto, o que é um outro castigo.

É na mesma rede social de joinhas, corações e afins que os abarbarados em frente à TV desengatilham comentários pedófilos sobre uma menina de 12 anos num programa culinário, que os desocupados se assanham em ataques racistas à atriz negra, que um integrante de alto escalão da prefeitura do Rio justifica espancar a mulher como “exagero na discussão”, que um exército ignóbil acha divertido entronizar os atentados terroristas de Paris. Isso, para ficar em coisa de duas semanas.

Uma forcinha iria bem, Brum. “Talvez não exista nada mais sério do que a boçalidade que atravessa o país.” Exato, obrigado.

Acontece que não cavalgamos até esse ponto. Trata-se da mesma horda que vai a um jogo de futebol chamar o adversário de “macaco”, em close no pay-per-view, que passa duas horas em ofensas sortidas a um atleta homossexual numa partida de vôlei, que mata a pauladas um, dois, não perca a conta, 32 pessoas sob o signo de um disparate batizado de guerra das organizadas. Isso, para ficar em coisa de um ano.

Organizados ou enxotados do bando, os burros sempre exalaram estupidez, preconceito, sectarismo. Ora em doses bovinas, ora em cocô de hamster. Não atingimos a burrice máxima, é o excremento que vai ficando pelo caminho. Os restos de uma hipocrisia em que — pior — o trato com a ignorância equivale ao júri da corrupção: recorre-se ao maneirismo para casos escancarados e ignora-se os de pequeno porte.

O boxeador gay dos anos 1960 poderia ser apenas um de incontáveis exemplos. Mas, nas intolerâncias de três quartos de século, ele ilustra com melancólica clareza quão pouco se caminhou (em qualquer direção): Griffith só assumiu publicamente a homossexualidade em 2009, aos 71 anos, quatro antes de morrer.

Esta coluna é originalmente publicada às quintas no Correio Braziliense

Two decades of hardcore journalism in a past life; now Digital Media PhD candidate @ University of Porto, coffee taster and vinyl aficionado

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