Parece que se passou dia desses — prova de que nossa atenção à temática mexicana se resume à Copa de 70 e às paletas (que, diga-se, não têm qualquer relação com o país) — , mas já faz um ano que Ronaldinho Gaúcho deixou o Atlético — o Mineiro — e o futebol — o brasileiro. Ali, no fim de julho de 2014, R10+39 adiantou-se à condição de reserva que se abeirava no Galo e pediu a boina. Trinta e poucos dias mais tarde, assinava contrato até 2016 com o acanhado Querétaro, do México. Major League, na Flórida, só mais adiante, quando até Cuba já estará anexada.

O Ronaldinho mexicano era quase paraguaio (expressão que desvanece a cada Copa América, sabemos). No Querétaro, foram 25 jogos e oito gols. Em apenas um terço das partidas, o atleta de 35 anos atuou os 90 minutos regulamentares. Na maioria, ou saía antes ou entrava depois. Quem espera vê-lo em forma (modo de dizer, claro) precisará de uma talhada de paciência. Neste 2015, ele só encarou três partidas inteiras — a última delas, em maio.

Essa jornada guacamole, porém, não precisa ser levada tão a sério. Na amaneirada percepção do torcedor brasileiro, o Campeonato Mexicano é como o Chinês ou como o “mundo árabe” (termo que nos livra de chutar se o Al-What? é dos Emirados ou do Catar). Na cabeça do jogador brasileiro, idem. Exceção feita a (oferta de) álcool, nenhum deles distingue bem San Juan del Rio de Doha.

Quem quiser arriscar prognóstico sobre R10 deve considerá-lo em versão Herbert Richers mesmo. Desde que voltou da Europa, o Duas Vezes Melhor do Mundo, entre bailes (de bola) e sambas (de raiz), estabeleceu prioridades, e a dele era fincar pé na cultura nacional (ah, os eufemismos…). Maldade. Vez ou outra, se deu ao trabalho. No Flamengo 2011/2012, em 33 partidas, R10 fez um grande jogo (o Santos 4 x 5 Fla na Vila). Foi um furacão de categoria 3, convenhamos (há rubro-negros que até hoje vão às lágrimas em frente ao YouTube), mas foi só um. No Atlético-MG 2012/2014, apresentou-se mais generoso — quatro, cinco partidas, talvez, com especial boa vontade no duelo ante o Arsenal, pela Libertadores. Num cálculo apressado, juntando os dois clubes, dá para separar meia-dúzia de atuações brilhantes em 80 jogos disputados. Quase 10%.

E o que parece tijolaço é a matemática perfeita para deslindar o torcedor tricolor que não sabe o que esperar da Pandora Gaúcha. Se ele resgatar os 10% de jogos extraordinários da média recente, valerá qualquer escapadela da concentração, eventuais atrasos e um ou outro caipisaquê ao lado de Fred (a R$ 800 mil por mês, R10 vai caprichar na simpatia per capita). Dez por cento são quatro Concertos para a Juventude no Brasileirão, dois no Carioca e, com sorte, ao menos um na Copa do Brasil. (Bem) mais da metade dos times da Série A não tem um jogador assim.

Como marketing, Ronaldinho é jackpot — vai vender camisa, calção e meia das três cores e tirar do traço a hoje constrangedora audiência do Flu no programa sócio-torcedor. Como investimento, separar esses R$ 800 mil mensais em dois envelopes e entregar, todo dia 5, nas mãos de Gerson (vendido ao Barça) e de Kenedy (vendido ao Chelsea) seria mais negócio. Mas isso significaria dispensar R$ 60 milhões.

E, no atual embalo do mercado, podia ser pior. Podia ser o Felipe Melo.

Esta coluna é originalmente publicada às quintas no Correio Braziliense

Two decades of hardcore journalism in a past life; now Digital Media PhD candidate @ University of Porto, coffee taster and vinyl aficionado