O dramaturgo Ariano Suassuna, que morreu, no ano passado, 15 dias depois da Seleção Brasileira de Felipão, colecionava um respeitável cabide de aspas. Não favorecia ficção ou realidade — obras e entrevistas rivalizavam sem vencedor aparente. E aproveitava para salpicar esperança a cada par de parágrafos ou sempre que emparelhava otimistas — todos ingênuos — e pessimistas — aqueles amargos.

“É o sonho que move o homem, não o bom senso.”

Quem há de discordar?

Sorte que o sonho move o homem. Fosse o bom senso, teríamos problemas. O bom senso, mergulhado num amargor cinzento, não encontraria lógica no otimismo de Carlos Alberto Nuzman: “Estamos trabalhando para ficar entre os 10 primeiros no número total de medalhas. É o mínimo que podemos fazer”, discursou presidente do COB, em setembro de 2010. Também teria certa dificuldade com Ricardo Trade, secretário de alto rendimento do Ministério do Esporte, que, quatro anos e meio mais tarde, manteve a prosa:

“Podemos estar entre os 10, sim. É uma meta factível”.

Factível, sem dúvida. Não é provável. O Brasil só abandonou a categoria café com leite dos Jogos na penúltima edição do século passado. Nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996, enfim, deixamos de ser as Eslovênias e Tunísias do quadro geral de medalhas. E, mesmo assim, não foi lá grande proeza: de Atlanta a Londres, a delegação brasileira terminou em 25º, 53º, 16º, 23º e 22º, respectivamente. Não existe média para isso. Ainda bem: se existisse, ocuparíamos o 27º “lugar médio” nas últimas cinco edições.

Em Londres, o Brasil pagou passagem a 258 competidores e terminou em 22º lugar, com três medalhas de ouro, cinco de prata e nove de bronze. A presidente da República, parece, gostou: “Nossos atletas mostraram que o Brasil está ajudando a construir, por meio do esporte, exemplos de vida”, disse à época. Fosse a Hungria, estaríamos criando a vida in vitro, seguindo a mesma lógica. Os húngaros levaram 100 atletas a menos e terminaram os Jogos em nono.

O Grande Hotel Budapeste não é exatamente exceção. Coreia do Sul, Cazaquistão, Holanda, Ucrânia, Nova Zelândia… todos despacharam menos gente que o Brasil a Londres, mas voltaram com resultado mais “exemplar” do que o nosso.

Entre otimismo e pessimismo, Ariano se dizia um realista esperançoso. É bom o rótulo. A esperança pressupõe que tudo vai dar certo. E, se tudo der mesmo certo, um eventual Top-10 vem como fava contadinha.

Mas e se der errado?

O que faremos se o equivalente a Baloubet du Rouet resolver refugar três vezes, como em Sydney? Se a favorita ao ouro na ginástica pisar fora da risca, como em Atenas? O que será dessa esperança se nossa estrela do atletismo perder a vara, como em Pequim? Ou se um velejador precisar ficar entre os 16 primeiros e cruzar em 17º, como em Atenas? Que mal acometerá nosso quadro de medalhas se as douradas meninas do vôlei desperdiçarem seis match points diante da Rússia, como em Atenas? Ou se a Seleção Brasileira de futebol encontrar pela frente Nigéria, Camarões ou México num mata-mata em que só a gente morre?

E se tudo der errado?

“Das três virtudes teologais, sou fraco na fé e fraco na qualidade, então me resta a esperança”, agarro-me a Ariano mais uma vez. Eu também, meu caro, eu também… Embora saiba que não é com esperança que se planeja um ciclo olímpico.

Esta coluna é originalmente publicada às terças no Correio Braziliense

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Two decades of hardcore journalism in a past life; now Digital Media PhD candidate @ University of Porto, coffee taster and vinyl aficionado

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