Vasco, Barcelona e a mulher sem destino

O Barcelona catalão nunca foi time pequeno. Nunca foi nem médio. Podia ser pitaco, mas é estatística. Do fim da Guerra Civil Espanhola, quando o campeonato nacional chegou a ser interrompido, até os glory days atuais, a única ocasião em que o Barça acabou abaixo do sexto lugar tem pra lá de 70 anos — 12º, na imemorável temporada 1941/1942 (imemorável para você, porque no Libro de Visitas do Castellón, nono colocado, ela é uma coisa).

O Barcelona nunca foi time pequeno, mas já fraquejou por aí. Em 1986/1987, por exemplo, pendurou-se na sexta posição do Espanhol, atrás do Osasuna. Em 1994/1995, não passou do quarto lugar, pior que o Betis. E, num fiapo de lógica, de 2000 a 2003, padeceu três edições seguidas sem emplacar vaga entre os três primeiros.

Hoje, parece inverossímil, mas em 5 de novembro de 1997, em um Camp Nou com 62 mil torcedores, o clube catalão foi sobrepujado pelo Dínamo de Kiev por 4 x 0 e deu adeus a qualquer chance de se classificar ao mata-mata da Liga dos Campeões 97/98. Eliminado naquela fase de grupos, o Barcelona terminou em último na chave, atrás de — não caia da cadeira — Dínamo, PSV e Newcastle. Saldo de gols: -7, quase um Avaí. Como ironia é uma faculdade que sempre se aperfeiçoa, no dia anterior, no Maracanã, o Vasco derrotava o Atlético-MG por 2 x 0, dois gols de Evair, e garantia matematicamente a melhor campanha na fase de pontos corridos do Brasileirão de 1997 — o que acabou sendo profícuo, uma vez que o título nacional saiu de dois empates na decisão.

As histórias de Vasco e Barcelona — o da Catalunha — não se cruzam naquele fim de século por culpa do Barça. A equipe carioca fez a parte dela: ganhou a Libertadores do ano seguinte, contra o de Guayaquil, e credenciou-se para disputar a decisão do Mundial de Clubes em 1998. Exatamente contra o vencedor daquela mesma Liga dos Campeões que só amargou desilusão aos catalães. Desilusão poca es necedad: quem ganhou a Champions 97/98 foi o Real.

O ano de 98 é quase outra encarnação, concordamos. Não havia o euro, ninguém sabia o que era a Matrix, e Joey Ramone estava vivo. Eternidade.

É uma filosofia otimista. Que, a rigor, tem outro significado: são só 17 anos. E nesses 17 anos, o Barcelona ganhou mais quatro Champions — até então havia vencido apenas uma — e se converteu, de vez, no maior clube do mundo. Já o Vasco — embora ainda tenha sido campeão brasileiro em 2000 — caiu duas vezes para a segunda divisão. Tudo matemática elementar.

A transformação do Barça está vastamente documentada. Óleo de côco na base — Valdés, Oleguer, Busquets, Pedro, Iniesta e Messi não custaram um centavo — e um porta-aviões de dinheiro — só neste século, sem contar a inflação, os catalães queimaram 1,1 bilhão de euros em contratações.

Com 1,1 bilhão de euros, até o Vasco teria solução. Como o faturamento atual do clube só permitiria alcançar esse valor em 2049, o Vasco é uma Anastácia. Aquela pobre mulher sem destino. Em 1967, o maior fiasco das telenovelas brasileiras, Anastácia, a mulher sem destino, só foi destrincado com uma fórmula inusual. A roteirista cubana Glória Magadan convocou a então novata Janete Clair para aclarar a trama. Diante de um script ininteligível e ibope sob falência, fez uso de medidas extremas: matou mais de 100 personagens num terremoto, deixou três ou quatro e avançou a história 20 anos no tempo.

Foi o Ctrl+Alt+Del da televisão brasileira. Para Anastácia, funcionou.

Esta coluna é originalmente publicada às quintas no Correio Braziliense

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Two decades of hardcore journalism in a past life; now Digital Media PhD candidate @ University of Porto, coffee taster and vinyl aficionado

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